A comunidade quilombola de Burajuba, em Barcarena, nordeste paraense, ganhará em breve um importante espaço de representação e resistência de suas memórias. Através de uma parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), os moradores construirão de forma coletiva, na própria localidade, o Museu Quilombola Januária Rodrigues (MQJR), o primeiro museu da cidade.

O nome da instituição homenageia Januária Rodrigues, mulher negra, escravizada e morta em um antigo engenho da região. O projeto, surgido de um antigo sonho da líder comunitária Maria do Socorro Costa, bisneta da homenageada, começou a ser planejado a partir da pesquisa de Doutorado do museólogo Leonardo de Sousa Silva, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM) da UFPA. Leonardo estuda as narrativas de vida e de resistência das comunidades tradicionais de Barcarena em relação aos grandes projetos de mineração no município.

“Barcarena é vendida como a cidade do alumínio, local do principal polo industrial do Estado, todavia, as pessoas mais antigas ficam de fora desse processo de modernidade, muitas vezes sob a justificativa de que não possuem a devida escolaridade. Em grande parte, o que resta para essas pessoas nativas e tradicionais do município é a realidade da poluição que afeta atividades cruciais para elas, como a pesca e o plantio”, afirma o pesquisador

Leonardo explica que o projeto foi se desenvolvendo ao longo do período de pesquisa de Doutorado na comunidade e após compartilhar o desejo da líder comunitária com outros museólogos, ele decidiu colocar a ideia em prática. “Ouvir as narrativas e histórias tristes me geraram uma indignação e me transformaram em um militante que abraçou as pautas locais a ponto de sonhar em fazer algo mais prático para ajudar essas pessoas. Eu não queria apenas escutá-las e escrever uma tese que talvez não gere o retorno desejado”, destaca.

Maria do Socorro afirma que a proposta do museu é apresentar as memórias, as narrativas, a luta ambiental, os conhecimentos tradicionais e a identidade quilombola local a todos que visitarem a comunidade. “Queremos deixar a história da nossa luta para as futuras gerações e resgatar a nossa identidade de volta. Eu acho que através desse museu os quilombolas vão dar mais importância e entender que a nossa luta ainda não acabou, que não é fácil! Acho que isso é importante nesse projeto”.

O projeto conta ainda com o apoio de quatro museólogas da UFPA e do escritório de arquitetura e urbanismo Coletivo Jabuti, que ajudará a pensar e criar o espaço do MQJR. A instalação será construída na sede comunitária de Burajuba, onde ocorrem eventos e reuniões sobre a luta por direitos frente as empresas de mineração que atuam na cidade. O acervo contará com objetos adquiridos junto a membros da comunidade. “Dentre os acervos teremos registros fotográficos, narrativas e objetos doados, vinculados aos conhecimentos tradicionais (agricultura, caça e pesca), a história quilombola, a religiosidade, vidas e vivências de membros e lideranças comunitárias, bem como as suas experiencias de resistência frente aos megaprojetos”, detalha o museólogo.

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