O Governo do Pará decretou luto oficial em memória de Damasceno Gregório dos Santos, o consagrado Mestre Damasceno, que faleceu aos 71 anos na madrugada desta terça-feira (26), data em que Belém celebra o Dia Municipal do Carimbó. A confirmação foi feita por familiares.
O artista marajoara estava internado desde 22 de junho. Inicialmente atendido em Belém, foi transferido para o Hospital Jean Bittar e, em seguida, encaminhado ao Hospital Ophir Loyola, onde permaneceu na UTI para tratar complicações de pneumonia e insuficiência renal. No mês de junho, havia recebido o diagnóstico de câncer com metástase no pulmão, fígado e rins.
Nas redes sociais, o governador Helder Barbalho lamentou a perda do mestre e anunciou a decretação de luto oficial em todo o estado.
Reconhecimento em vida
Poucas semanas antes de falecer, Damasceno foi um dos grandes homenageados da 28ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, realizada em Belém, ao lado da escritora Wanda Monteiro. Durante o evento, foi lançado o livro “Mestre Damasceno e as Cantorias do Marajó”, de Antonio Carlos Pimentel Jr., voltado ao público infantojuvenil e inspirado na trajetória do músico.
Ainda em 2024, em maio, recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC), a mais alta condecoração do Ministério da Cultura, reconhecimento concedido a personalidades que marcam a história da cultura brasileira. Na ocasião, Damasceno destacou sua ligação com as raízes quilombolas e celebrou os mais de 50 anos dedicados à preservação das tradições marajoaras.
Vida dedicada à arte
Natural da comunidade quilombola do Salvá, em Salvaterra, onde nasceu em 1954, Mestre Damasceno transformou a própria trajetória em resistência cultural. Aos 19 anos, perdeu a visão em um acidente de trabalho, mas reinventou sua vida por meio da música e da poesia.
Foi criador do Búfalo-Bumbá de Salvaterra, expressão que une teatro popular, carimbó, elementos quilombolas e da natureza amazônica. Autor de mais de 400 composições e dono de seis álbuns gravados, tornou-se um dos principais nomes da cultura nortista.
Em 2025, sua obra ultrapassou fronteiras: o samba-enredo “A mina é cocoriô!”, de sua autoria, foi escolhido pela Unidos da Grande Rio para embalar a homenagem ao Pará no carnaval carioca.
Símbolo do Marajó
Damasceno também fundou, em 2013, o Conjunto de Carimbó Nativos Marajoara, grupo que já lançou quatro discos com a marca inconfundível do carimbó pau e corda. Entre as criações recentes, destacou-se o Cortejo Carimbúfalo, que leva música e tradição para as ruas de Salvaterra, e a realização do Festival de Boi-Bumbá no município, reunindo comunidades quilombolas em celebração coletiva.
Ao longo da carreira, acumulou inúmeros prêmios e títulos, entre eles o de Mestre da Cultura Popular do Estado do Pará (2015) e o reconhecimento como Mestre de Carimbó pelo IPHAN (2017).
Figura essencial da identidade amazônica, Mestre Damasceno deixa um legado de resistência, criatividade e amor às tradições populares do Marajó e do Pará.


